Por
Bruno Accioly em
15 de
February de
2008
“Ser livre é possuir
a si mesmo.”
Henri Lacordaire
O assunto vem se tornando cada vez menos polêmico, enquanto os valores sociais vão sendo resignificados e o novo cogito vai sendo legitimado.
Sejam as cirurgias estéticas uma necessidade real, um desejo adquirido ou uma solução drástica para um problema real aplicada a problemas imaginários, o fato é que a tecnologia existe e está disponível para o grande publico.
É possível recordar um tempo no qual havia uma triagem - ou se discutia a respeito da importância desta prática - que tornasse um paciente elegível para uma dada cirurgia estética, não porque estas eram mais arriscadas, mas porque, independente do risco cirúrgico, há alguns outros fatores que devem ser levados em consideração.
'Somos Livres?' - Fotos de Maurício Chiminazzo
Em alguns casos, a cirurgia estética é uma necessidade devido a impossibilidade de o paciente conseguir dado resultado que, eventualmente, poderia salvar sua vida ou reparar um dano anatômico que lhe ocasionaria desconforto físico ou mesmo social.
Algumas cirurgias do tipo, contudo, não podem ser revertidas, o que dá pouca ou nenhuma margem para reparação de danos anatômicos ou fisiológicos inadvertidos - que tenham raiz na falta de tradição, testes e maturidade do procedimento - ou mesmo para a mudança de idéia por parte do paciente.
Praticas cirúrgicas estéticas vêm se tornando cada vez mais comuns, assim como aconteceu com as intervenções cirúrgicas tradicionais. Nada mais comum em uma disciplina em constante evolução como é o caso da medicina.
O entendimento da cirurgia estética - ou qualquer outra forma de cirurgia - como mero serviço, contudo, tem implicações éticas sérias que, já há muito, são previstas pelos conselhos de ética das disciplinas de saúde.
Quem decide, hoje, que a cirurgia estética é o curso de ação mais adequado é, em muitos casos, o paciente ou - como talvez seja mais apropriado denominar - o cliente.
A qualificação para levar a cabo tal sorte de cirurgia é cada vez mais comum e um tipo de médico novo surgiu, há algum tempo, para atender a demanda (do mercado) por mudanças anatômicas cuja necessidade é questionável e quase nunca questionada.
É possível argumentar em contrário a uma posição que se tome contra o uso indiscriminado das cirurgias estéticas, logicamente. Sempre é. Isto não exclui o fato de que cirurgias implicam em riscos que, quando são desnecessários, são desnecessários, e que quem deve decidir quando algo é ou não necessário é o profissional de saúde e não o paciente.
'Somos Livres?' - Fotos de Maurício Chiminazzo
O problema - e sempre é possível questionar se há ou não um problema - é que há casos nos quais se configura um claro conflito de interesses e passa a ser mais importante para o médico garantir a quantia a ser recebida pelos serviços prestados do que efetivamente se preocupar com a necessidade real de dada cirurgia: “Afinal… Foi o que é o que o cliente quis!”
Vivemos na sociedade em que vivemos, onde tudo vem sendo desenvolvido em prol de tornar a vida mais fácil e atender aos nossos desejos. Mudar isso, agora, talvez seja um desafio grande demais… Mas nunca é demais questionar os caminhos que escolhemos para nós mesmo - seja enquanto sociedade ou seja enquanto indivíduos.
Diferentes ideologias surgiram em diferentes épocas que denunciavam os perigos de uma vida voltada para o atendimento dos próprios desejos e, em alguns casos, dedicavam boa parte de sua literatura a uma ou outra forma de privação como sendo uma forma de alcançar a virtude. Talvez haja algo para se aprender aí.
Ser indulgente em demasia com os próprios desejos não é - necessariamente - atender às próprias necessidades. É possível morrer de “inanição” por comer-se apenas o que se gosta, se o que se gosta tem suficiente massa alimentar para saciar o apetite mas não os nutrientes necessários para nos manter vivos.
Há portanto grande diferença entre o desejo e a necessidade real. “Eu preciso porque eu quero”, no entanto, virou o mantra dessa sociedade de vícios, de hedonismo e de atitudes desmedidas.
É preciso, talvez, questionarmo-nos em quão é prejudicial, existencialmente, à uma pessoa, que ela seja incapaz de ter a paciência para ter belos músculos por mérito próprio e não pela aquisição de bolsinhas de silicone, bem como emagrecer por tenacidade e forca de vontade, em uma dieta projetada por um nutricionista e não através da redução de estômago.
De novo: há casos nos quais uma pessoa não tem mesmo como conseguir a redução de peso através de dietas, entretanto, não é segredo que a obesidade vem se alastrando com velocidade nunca antes vista, ao mesmo tempo que a excessiva valorização da vaidade, juventude e da extrema magreza tem se tornado uma obsessão.
Numa sociedade onde se valoriza este modelo de beleza parece incoerente valorizar também a busca ensandecida pela satisfação de desejos, excessos e caprichos.
'Somos Livres?' - Fotos de Maurício Chiminazzo
Não raro discute-se acaloradamente a respeito de que enxertar um músculo de silicone não é diferente de se maquiar ou que fazer uma operação de corte do estômago não é diferente de cortar as unhas.
Os argumentos acima, guardando as devidas proporções, são obviamente válidos. Nos ajudam a questionar quaisquer julgamentos baseados no medo do novo, o que é muito bom. Mas é sempre importante que nos preocupemos com o fascínio incondicional pelo novo e com nossa atual tendência para a constante e ilimitada busca pela satisfação de nossos desejos… É preciso que não nos permitamos banalizar as conseqüências de nossos atos.
Para além do que Desejamos há um Real, que nos aponta para o que de fato Precisamos, assim como para além do que Queremos há a Moral, que nos aponta o que Devemos fazer.
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Por
Bruno Accioly em
10 de
December de
2007
Roleplaying Game e a Pedagogia da Imaginação no Brasil, de Sonia Rodrigues
Com o título de “Roleplaying Game e a Pedagogia da Imaginação no Brasil”
, o livro de Sonia Rodrigues, da Editora Bertrand Brasil, é resultado do primeiro estudo acadêmico sobre RPG levado a cabo por uma universidade brasileira.
Poderia facilmente se tratar de uma abordagem apaixonada e apologética sobre o Roleplaying Game, como não é difícil encontrar por aí, mas o livro de Sonia Rodrigues aborda o assunto com imparcialidade e rigor acadêmico impecável, enquanto descreve seus defeitos e qualidades intrínsecos, sem deixar de supor caminhos que, se tomados, enriqueceriam o RPG enquanto produto e o tornariam mais do que simples ferramenta de entretenimento.
O livro faz uma análise tão detalhada quanto possível do “Advanced Dungeons & Dragons”
e do “Vampiro, A máscara”
, do ponto de vista literário, fazendo observações constantes a respeito do potencial pedagógico e do resultado subjacente a tentativa destes livros-jogos de formar, em poucas centenas de páginas, contadores-de-história criativos e dinâmicos, capazes de fazer referências cruzadas a produtos da cultura pop.
Defendendo constantemente que é possível ensinar o “contar-histórias” e que a técnica narrativa não é substituída pelo talento mas dele se beneficia, Sonia Rodrigues constrói pontes entre a narrativa das aventuras de RPG, o conceito de Conto Maravilhoso, de Vladimir Propp; de Pedagogia da Imaginação, de Bachelard e Italo Calvino; e a forma narrativa usada por Monteiro Lobato.
Roleplaying Game e a Pedagogia da Imaginação no Brasil, de Sonia Rodrigues - Contra-Capa
Seu livro, nesta medida, caracteriza o RPG como ferramenta incidentalmente positiva na formação cultural, literária e até moral, tendo em vista o uso de línguas estrangeiras, o exercício da imaginação, a organização estrutural narrativa e as escolhas e dilemas morais dos quais estão imbuídos o produto final de aventuras de RPG.
Com referências a Propp, Lobato, Adistóteles, José de Alencar, Auden, Barthes, Bentley, Eagleton, E.M.Foster, Kothe, Todorov e “grande elenco”, Sonia Rodrigues articula o bem estruturado discurso de que mesmo o extremo talento tem grandes ganhos com o conhecimento acadêmico-literário. Mais que isso, com a criação - que ela mesma assina - de um título de RPG cujo nome é “Autoria”, a autora pontua lindamente o valor que empresta a esse gênero ainda embrionário da literatura.
Sem querer contar da história o final, mas visitando as últimas páginas da obra, aponto o fato de que se há quem possa falar de talento literário é a própria autora, que além de conviver com o próprio, teve a oportunidade de estar exposta ao talento do pai, Nelson Rodrigues, referência obrigatória de Literatura Brasileira!
O que tenho a dizer, enfim, é que não se sai do mesmo jeito pelo outro lado desta obra!
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- “Roleplaying Game e a Pedagogia da Imaginação no Brasil”
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- Site oficial do Livro de Sonia Rodrigues
- Site oficial do RPG criado por Sonia Rodrigues

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