Por
Bruno Accioly em
15 de
October de
2007
“A verdade científica, e só o leigo talvez não saiba, é uma verdade provisória, tomada por empréstimo da natureza e da forma como ela se nos aparenta ser.”
Alberto Mesquita
Não nos abstendo de definir, uma vez mais, o significado da Ciência, para poder discorrer sobre seu Método, pode-se sintetizar que Ciência é um sistema de aquisição de conhecimento baseado no Método Científico, bem como a organização estrutural deste conhecimento mediante pesquisa.
É profundamente importante que o leigo compreenda que é objeto da Filosofia da Ciência identificar se é, de fato, válido falar em Método Científico enquanto ferramenta rigorosa e formalmente utilizada pelo cientista, ou se o fundamento científico é, na verdade um comportamento não cerimonial e sem tanta fleuma.
Feito o alerta acima é preciso que deste alerta o leitor se esqueça para entender quais conceitos estão por detrás do Método Científico e quais suas componentes mais facilmente identificáveis.
Argumento Indutivista
É preciso discorrer sobre o argumento indutivista até para que se entenda por que evolução passou o Método Científico e em quanto suas transformações foram importantes para sua sistematização mais efetiva.
Segundo o argumento indutivista: “Se, em dadas condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, em futuras verificações o mesmo sucederá.”
David Hume Criticou o indutivismo no século XVIII, posto que a observação de uma afirmação “este cavalo é malhado”, por exemplo – que pode ser vista como observação de um fenômeno - não implica logicamente que todos os cavalos, por definição, serão malhados para cada cavalo que nos apareça pela frente.
A.F.Chalmers retorna ao ponto, em 1976, com fortes proposições contra o indutivismo, explorando seu reducionismo e o fato de que, segundo este argumento, seria possível engendrar uma generalização universal – uma Lei – a partir da observação somente, sem a necessidade de um processo dedutivo que estabelecesse relação causal e sem que haja o estabelecimento de premissas. Tal prática leva, invariavelmente, ao erro.
O indutivista julga a existência mediante a noção de que não há causa sem efeito, uma inversão ingênua e grosseira do axioma de que não há efeito sem causa.
No domínio da Opinião, o indutivista constrói um mundo de fantasia e o utiliza como premissa para o entendimento do mundo Real, se abstendo do questionamento de sua realidade e se negando a evoluir concepções, preferindo remendar sua hipótese infundada que trata, de si para si, como Teoria.
Argumento Dedutivista
Elaborado na Filosofia, o argumento dedutivista nos veio através de Tales de Mileto, Pitágoras e Aristóteles, mais recentemente se transformando em um modelo hipotético-dedutivo, popularizado por Karl Popper.
Segundo este argumento: “Se em dadas condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, qualquer afirmação decorrente desta premissa, para que seja hipótese, deverá ser passível de verificação observacional.”
Diante do argumento acima é ainda importante ressaltar – como o fez Antônio Joaquim Severino em “Metodologia do Trabalho Científico”:
“É preciso não confundir hipótese com pressuposto, com evidência prévia. Hipótese é o que se pretende demonstrar e não o que já se tem demonstrado.”
O argumento dedutivista propõe uma análise do geral para o particular – ao contrário do indutivista – gerando suspeitas e não provas e, portanto, não resolvendo o problema, mas reduzindo a condição de erro a um mínimo.
Pode parecer um subterfúgio filosófico-subjetivista para evitar resolver o problema, no entanto a prática dedutivista tenta proteger os resultados das inclinações pessoais do cientista.
Elementos do Método Científico
Tentando ser ligeiro e, até, muito econômico nas definições dos conceitos a seguir…
Caracterização
Identificação, Classificação, Quantificação, Mensuração de Fenômenos Naturais.
Hipóteses
São afirmações não suficientemente comprovadas nem descartadas por experimentos.
Previsões
Deduções lógicas a partir de hipóteses formuladas.
Teorias
Um modelo cuja consistência lógica é verificada, que pode arrebanhar um conjunto de hipóteses que a definam e que generalizam o comportamento de dado fenômeno.
Princípio das Aproximações Sucessivas
Estabelece que a verdade sobre determinado fato jamais é atingida integralmente, mas vai sendo aperfeiçoada continuamente. Um conhecimento vale, até que novas observações ou experiências o contradigam.
Sobre o tema é indicado ler “A Relatividade do Errado“, de Isaac Asimov.
Princípio da Navalha de Ockham
Proposição utilizada em Lógica, segundo a qual uma hipótese mais simples tenda a ser a mais acertada ou, a rigor: “Se duas hipóteses explicam os dados com igual eficiência, deve prevalecer a mais simples.”
A proposta defendida por William de Ockham no Século XIV encontrou resistências maiores ou menores por Leibniz (1646-1716), Kant (1724-1804), Karl Menger (século XX) e é importante entender o objetivo de tal instrumento sem preferir utilizá-lo como ferramenta redutora, que reduza um Problema a uma mera questão.
Sobre o tema é indicado ler “Navalha de Ockham“, na Wikipédia.
Princípio da Falseabilidade
Das mais importantes características do Método Científico na atualidade, a Falseabilidade nasce com Karl Popper no Século XX, pensamento no qual se propõe a Refutabilidade de qualquer teoria científica por princípio. Isso significa que o cientísta jamais deve aceitar uma condição de Comprovação e sempre buscar algo que não corrobore com sua teoria, no lugar de aguardar até que uma evidência contrária se apresente.
Sobre o tema é indicado ler “Falseabilidade“, na Wikipédia.
Etapas do Método Científico
- Definir o problema.
- Recolhimento de dados
- Proposta de uma hipótese
- Realização de uma experiência controlada, para testar a validade da hipótese
- Análise dos resultados
- Interpretar os dados e tirar conclusões, o que serve para a formulação de novas hipóteses.
- Publicação dos resultados.
Excertos
Cabe citar aqui um parágrafo da “Teoria sobre o Método Científico”, de Alberto Mesquita Filho, que talvez ajude no entendimento da posição, do acadêmico, no panorama científico moderno.
“Rigorosamente falando, a partir do uso modelo dedutivo, o problema não é tão insolúvel assim. Será insolúvel tão-somente para aqueles que julgam estar, cientificamente, buscando por verdades absolutas. A verdade científica, e só o leigo talvez não saiba, é uma verdade provisória, tomada por empréstimo da natureza e da forma como ela se nos aparenta ser. As verdades científicas de hoje serão, quando não negadas, lapidadas e reformuladas amanhã. Se chegaremos ou não, por métodos científicos, à verdade absoluta, é um questionamento que a ciência não está aparelhada para responder. E talvez nunca esteja, o que não nos impede de que continuemos procurando pela verdade.”
Alberto Mesquita Filho
Vale ainda epigrafar Popper que, norteia o Racionalismo Crítico moderno e, de mais de uma forma, refaz a História, o Exercício e a Filosofia da Ciência com a escola de pensamento que veio a fundar:
“Começo, regra geral, as minhas lições sobre Método Científico dizendo aos meus alunos que o método científico não existe. Acrescento que tenho obrigação de saber isso, tendo eu sido, durante algum tempo, pelo menos, o único professor desse inexistente assunto em toda a Comunidade Britânica.
…
Tendo, então, explicado aos meus alunos que não há essa coisa que seria o método científico, apresso-me a começar o meu discurso, e ficamos ocupadíssimos. Pois um ano mal chega para roçar a superfície mesmo de um assunto inexistente.”
Karl R. Popper
Excertos feitos, ficam no ar os objetos de reflexão até que falemos, em um próximo ensaio, sobre o Naturalismo Metódico, o Racionalismo Crítico e o Instrumentalismo, super-classes que representam as três grandes escolas de pensamento que definem a Comunidade Científica.
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Por
Bruno Accioly em
12 de
October de
2007
Capa do filme “Pequena Miss Sunshine”
Não é todo dia que se coloca no Mercado um filme como este.
Trata-se de uma comédia de costumes, que reúne todos os elementos para fazer qualquer família rir no melhor estilo Domingão do Faustão.
Pegue uma família disfuncional formada por uma mãe bem-intencionada, alquebrada e sem recursos; um pai falido mas confiante na vã filosofia de auto-ajuda que desenvolveu; um avô que foi expulso do asilo por ser usuário de drogas; um tio homossexual, suicida, Filósofo e conhecedor de Proust; um rapaz que sonha ser piloto de caça que fez voto de silêncio até que alcance seus objetivos; e uma adorável menina, cheínha, que sonha em ser Miss.
Mas é mais do que isso: a preciosidade que é “Pequena Miss Sunshine” fala diretamente à porção ridícula que há em mim e em você, ao lado perdedor de cada um de nós, àqueles que não conseguem decolar a despeito de viver tentando. O filme esbofeteia sem pudor a mediocridade da classe média enquanto pisa nos valores que desfilamos uns diante dos outros.
Mas é mais do que isso: trata-se de um filme sobre um regime totalitário que desprivilegia qualquer tentativa de mudança de estado por mérito e que desqualifica qualquer valor que não aquele que, de alguma forma, tenha sido alardeado pelo Sistema, pelo Estado, pela Media, por este Inimigo-mais-Esperto que tentamos apontar qual seja a cada resenha presunçosa de filmes interessantes.
Não há como se abster diante dos subtextos e diante de tantos canais pelos quais a obra se comunica com o público.
Paulo Ghiraldelli Jr. - que pode ser assistido por aqui em vídeo - definiu a Filosofia como: “a disciplina da desbanalização do que, sem ela, seria considerado banal”. Difícil discordar.
A encantadora Olive e suas embonecadas competidoras.
“Pequena Miss Sunshine” é um tratado bastante “econômico” do que há de errado em um pano de fundo carcumido e surrado, que foi estendido no fundo do palco, para enganar uma trupe que esqueceu-se só estar cumprindo um papelzinho coadjuvante, em uma peça que ninguém mais assiste e que já saiu de cartaz sem que lhes avisassem.
Com os experientes diretores de documentários musicais, e estreantes na direção cinematográfica, Jonathan Dayton e Valeri Faris, o filme conta com roteiro de Michael Arndt – o que também não explica muito do sucesso obtido. Os três, ilustres desconhecidos, tomaram de assalto a Academia e a todos os expectadores com essa, magnificamente sutil, peça de luz e sombra!
O ótimo elenco do filme, encarnando nos personagens que viajam na kombi da vida...
O elenco formado pelo grande Alan Arkin, o ótimo Gregg Kinnear, a versátil Toni Collette, o engraçado Steve Carell e o talentoso Paul Dano, tiveram a rara oportunidade de filmar em seqüência, mas a péssima experiência de ver a produção se arrastando por longos cinco anos, graças a problemas financeiros – bastante interessante uma vez que o filme acabou ganhando dois Oscars, foi indicado para quarenta prêmios e ganhou outros quarenta.
Não é nada difícil olhar para este filme como mais uma comédia água-com-açúcar enlatada. É fácil banalizar tamanha sutileza e taxar um filme como este de “superestimado pela crítica”.
Mas quem resolver condenar o filme a tão pequena condição, deveria atentar para dois detalhes muito importantes:
1. Proust
O heróis do personagem de Steve Carell, tão mencionado no filme, é Marcel Proust, o autor de uma das mais espetaculares obras da literatura universal “Em Busca do Tempo Perdido”.
A obra de Proust, composta de 7 volumes que somam 3200 páginas, tem inúmeros pontos de convergência com o filme. No livro, o narrador insistentemente discorre acerca da importância da memória de cada época da vida, enquanto no filme todas estas épocas estão presentes na figura das personagens; é discutido o retorno necessário à inocência para o entendimento da natureza da arte, discussão esta deflagrada a partir de uma perda na família; o homossexualismo é explorado como algo que transcende a noção reducionista da promiscuidade e perversão, invadindo definitivamente o campo do amor.
Os elementos são facilmente identificáveis no filme, embora este não se proponha a estabelecer formalmente uma releitura minuciosa de Proust.
2. Orwell
Outra evidência de que o filme é uma condensação alegórica e que há mais ali do que o que aparece na tela, é a coincidente brutalidade, muitas vezes até risível, com que a realidade arrebata as personagens, remetendo a um pesadelo distópico Kafkiano ou, mais precisamente, Orwelliano.
George Orwell, em seu livro “1984”, faz pesada crítica a brutalidade com que a língua é contraída, desconstruída e corrompida pelo “mundo moderno” e em quanto isso compromete a preservação da identidade e da cultura.
Esta pode parecer uma leitura forçada e que se está lendo demais onde nada existe…
“O que tem isso a ver com ‘Pequena Miss Sunshine’, afinal?!”, seria possível perguntar.
O poster original do filme “1984”, filmado em 1956.
Para quem não identifica Orwell em “Pequena Miss Sunshine”, sugiro que olhe de novo para o filme e para a presença constante do Grande Irmão, na estampa da camiseta do personagem Dwayne, vivido por Paul Dano.
Na melhor tradição da filmografia Distópica, “Pequena Miss Sunshine” se junta a tantos outros como “Brazil“, “O Processo“, “1984“, “Fahrenheit 451“, “THX 1138“, “Fuga do Século XIII“,”Tron“, “Adminirável Mundo Novo“, “Vingador do Futuro“, “Demolition Man“, “Tropas Estelares“, “Gattaca“, “Vanilla Sky“, “Minority Report“, “Matrix“, “Fast Food Nation“, “Dogville“, “AI“, “De Olhos bem Fechados“, “Colateral“, “A Ilha” e tantos outros.
É claro que algumas pessoas vão ter dificuldade de identificar “Pequena Miss Sunshine” como fazendo parte do conjunto de filmes que listei acima. Muitas terão até dificuldade de identificar todos os filmes acima como fazendo parte do mesmo conjunto… mas isto é tópico para outra discussão.
Seja como for classificado, contudo - profundo ou superficial - o filme é delicioso de ser visto, arrancando gargalhadas de uns e lágrimas de outros, enquanto promove a desbanalização de temas como a morte, a beleza e a importância de se saber voltar a ser criança.
- Você quer saber mais?
- Site Oficial . Site oficial do filme
- IMDB.com . Os detalhes sobre o filme (em Inglês)
- AdoroCinema.com . Outros detalhes sobre o filme
- FireFox . Usa FireFox? Quer evitar a ida ao IMDB? Clique aqui!
- Você quer comprar online?
Submarino.com . Pequena Miss Sunshine (R$ 39,90)

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