Por
Bruno Accioly em
12 de
November de
2007
“parecemos controlar o percurso da história […] emissores e receptores ao mesmo tempo. Construímos, temos o destino nas mãos, colhemos o que nós mesmos plantamos…”
É inevitável… de tempos em tempos surge uma teoria que tenta unificar um grande conjunto de coisas, sugerindo que estão todas interligadas, tem um mesmo sentido íntimo ou um conceito normativo que explique causas, efeitos e todo o entorno daquele fenômeno.
Ainda que reducionista em essência, o corte da realidade que é feito para identificar um significado metafísico para esse conjunto de coisas – ainda que o leitor não concorde com a teoria – provoca a reflexão sobre nossas próprias perspectivas a respeito de um fenômeno.
Hoje vou fazer este mesmo exercício com a Tecnologia e propor uma forma - quem sabe? – diferente de enxergar os nossos motivos para empreender todo nosso Desenvolvimento Tecnológico.
O que há de constante em cada uma e em todas as tecnologias desenvolvidas por nós, desde as máquinas simples, como porretes, facas, planos inclinados e tesouras de tosquia até aparatos mais complexos como monjolos, carruagens, motores, computadores e naves espaciais?
Passando por processos definidos, técnicas de plantio, métodos de análise científica e indo até as conquistas científicas materializadas pela Engenharia, tudo o que o ser humano faz tem alguma ligação com a transformação de seu meio em algo que ele deseja.
“Viajar parado é, assim, o modo mais cômodo de ficar onde já se está, de modificar tudo para não mudar nada, andar para ficar parado.”
Viemos desde a época das cavernas até hoje, nos distanciando do Real como ele é para construir uma nova Realidade, onde as coisas sejam como desejamos que elas sejam. Criamos, essencialmente, “meios” para fins… e “todos os meios são prolongamentos de alguma faculdade humana – física ou psíquica” (“O Meio são as Massagens”
, de
Marshall McLuhan
).
Se assumimos, com fins investigativos, esta proposição como verdadeira, começa a se descortinar que o Programa Tecnológico do Ser Humano consiste no empreendimento da construção de uma Realidade que nos liberte do que há de inóspito no Real.
Considerando então que o Real é o que existe para além das percepções divergentes ou convergentes de cada um de nós, chegamos na conclusão de que todo o empreendimento tecnológico faz parte de um movimento maior do ser humano, no sentido de criar um mundo que, virtualmente, não existe e que, portanto, pode ser chamado de Realidade Virtual.
Neste sentido, somos todos jogadores de um videogame ambientado no mundo Real como se não o fosse.
Ainda citando McLuhan – e tenham paciência para refletir sobre as analogias – as rodas podem ser vistas como prolongamento dos pés, o livro como um prolongamento dos olhos, a roupa como um prolongamento da pele… e circuitos elétricos são um prolongamento do sistema nervoso central.
Controlar a temperatura de uma sala já foi algo bem mais complexo, bem como esquentar um prato de comida ou ir de um lugar à outro. Sob o ponto de vista deste “Virtualismo”, o ser humano que pode está se alienando do Real para se enclausurar no vasto espaço da fantasia, onde todos os seus desejos sejam realizados cada vez de forma mais eficiente.
A palavra sustentabilidade pode já estar começando a pipocar na cabeça do leitor, mas este texto tem menos compromisso com a crítica a Tecnologia e mais com a reflexão acerca da diferença entre o desejo e a necessidade.
Uma vez mais: não é preciso que o leitor se desfaça de seus hábitos para que possa pensar a respeito deles. Desenhamos um mundo no qual muita gente está fora desta bolha de conforto que criamos. Descobrimos tarde demais que os recursos necessários, para manter somente uma ínfima parcela dos habitantes do planeta dentro desta bolha utópica, começam a provocar sérios problemas não só para nós mas para todos que ficaram de fora.
A discussão a respeito dos sacrifícios necessários, para que nossa criação fabulosa continue existindo, é importante, sobretudo, porque o número de expulsos – ou não convidados – para o paraíso, é grande demais para ser ignorado.
Controlamos o ambiente em que vivemos evitando sentir, por exemplo, o frio que outros estão sentindo fora da bolha na qual nos enclausuramos.
“O trivial coroa, assim, a difusão de uma estrutura profunda que é um constante retorno ao mesmo, doutrinando, pela identificação com o herói, todos na lógica do individualismo, para que tudo fique substancialmente igual, sob a aparência de uma acelerada modificação.”
Viajamos, sem sair do lugar, por universos puramente criados para o entretenimento e que podiam ser tão mais que isso!
Desenvolvemos, cada vez mais, a qualidade dos meios de imersão em ambientes virtuais, seja através de placas de vídeo e áudio mais poderosas para nossos computadores, capacetes de realidade virtual ou mecanismos de indução sensorial.
Começamos a desenvolver agora a tecnologia de MixedReality, ou Realidade Híbrida, que vai distanciar ainda mais o não tão abastado, daqueles que terão condição de, com um par de caríssimos óculos ver a sua volta elementos da nossa cultura que só uma fração da população – que sustenta os produtores deste substrato – terá condição de usufruir.
Não é tarde demais… É preciso encontrar, nessa virtude, que é a Genialidade natural ao Ser Humano, espaço para combater o vício da Ganância – que embora também seja natural ao ser humano, não deixa de ser vício. E combater os vícios é em si uma virtude, ao mesmo tempo que um movimento estratégico mais inteligente e justo para nossa subsistência no planeta.
Um discurso panfletário é menos efetivo que o raciocínio do leitor sobre a questão, portanto, basta encarar a si mesmo com a pergunta acerca de quanto de seu conforto poderia ser sacrificado para que alguém, em algum lugar, tivesse mais conforto.
Quero crer que a Corrida Humana não tenha como intuito que apenas uma parcela dos corredores seja agraciada com os espólios no final…
Quero crer que temos tempo suficiente para refletirmos a respeito da questão antes de tomar uma atitude…
Quero crer que a Tecnologia tenha uma função social maior que simplesmente entreter um seleto grupo de hedonistas egocêntricos que chamamos de “Nós”…
O público de entretenimento quer a mesma história disfarçada em outra […] Quer o perigo tendo a certeza íntima de não precisar derramar seu sangue […] As perguntas se acumulam, mas não são perguntas o que quer o receptor.
Quer ter a sensação de perigo, sem ter de passar perigo algum; quer o prazer de caçar o caçador, sem tornar-se vítima da caçada.
Não quer conhecer, mas esquecer; não quer reconhecer, e sim camuflar.”
Flávio R. Kothe
(“A Narrativa Trivial”
)
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